LIBRAS: inteligência artificial/robôs X intérpretes humanos LIBRAS: inteligência artificial/robôs X intérpretes humanos

LIBRAS: inteligência artificial/robôs X intérpretes humanos

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LIBRAS: inteligência artificial/robôs X intérpretes humanos

Alguns pesquisadores vêm desenvolvendo avatares em 3D para utilização na tradução de textos produzidos do português para LIBRAS – a Língua Brasileira de Sinais. Como sabemos, normalmente as novas tecnologias chegam para ficar, mas sempre cabe questionamento sobre sua eficácia. E quanto à inteligência artificial para interpretar LIBRAS?

LIBRAS: inteligência artificial/robôs X intérpretes humanos
Imagem: Pixabay

Será que os surdos usuários de LIBRAS, principais interessados, foram ouvidos e emitiram opinião? Afinal, eles defendem o “nada sobre nós, sem nós”, lema das pessoas com deficiência. Resolvemos fazer uma busca sobre esse tema na internet.

Para começar, descobrimos que a “Convenção Sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência”, promulgada com equivalência de emenda constitucional pelo Decreto nº 6.949/2009, prevê em seu artigo 9 que o atendimento deve ser feito por intérpretes profissionais. Isso por si só já exclui a possibilidade de uso do avatar ou robô.

Pesquisa sobre inteligência artificial para LIBRAS

Nos deparamos também com uma pesquisa interessante aqui, realizada por Cleomar Rocha e Sarah Caetano de Melgaço… O uso de aplicativos para tradução de LIBRAS. Confira:

“Elaboramos um questionário online que ficou disponível para ser respondido entre os dias 27/01/2017 a 05/02/2017, conseguimos 87 questionários respondidos, com respostas de todos os cantos do país cidades como Santa Maria (RS), Brasília, Rio de Janeiro (RJ), Juazeiro, Duque de Caxias, Blumenau, João Pessoa, São Paulo, Coronel Fabriciano, Belo Horizonte e muitas outras cidades. Com mais da metade dos questionários respondidos por pessoas com nível de pós graduação, mestrado e doutorado, sendo 51,7%. Do total de entrevistados, 24,1% são surdos e usuários da Língua de Sinais Brasileira – LIBRAS. Sobre o contato com a LIBRAS, 50,6% já têm contato com ela e é usuário há mais de 10 anos. Os fluentes em LIBRAS são 55,2% e os iniciantes apenas 6,9%. Coincidentemente ou não, 55,2% dos entrevistados não faz uso dos aplicativos de tradução.”

Opiniões dos usuários de LIBRAS sobre avatares

Os pesquisadores apresentaram, entre outras, as seguintes respostas sobre o avatar: “Ele faz um português sinalizado. Não tem expressão e não sabe usar a parte mais bonita da LIBRAS, que são os classificadores”. “Falta expressão facial, que é muito importante para a língua. A LIBRAS tem várias regras, dentre elas está o uso das expressões não faciais para marcar a intensidade”. “O aplicativo gera sinais na mesma ordem em que são escritos, o que distorce o sentido da frase gerado em LIBRAS. Além disso, o avatar não apresenta sempre a expressão adequada, nem dá um ritmo de sinalização que corresponda sempre de forma ideal para transmitir a mensagem original, especialmente se o texto for informal. E ainda há falhas na adequação de sinais, quando uma palavra em português tem sentido ambíguo ou múltiplas interpretações”.

“Ajudam a não deixar o surdo completamente sem acesso, mas as traduções geralmente ficam literais, sem o sentido correto, podendo gerar dúvidas, sem que alguém possa tirá-las devidamente”. “Acho legal, mas o app tem que melhorar muito ainda. Mas os avatares e a inteligência artificial não vão substituir os intérpretes. Poderia utilizá-los para informações automáticas. Para tirar dúvidas e ajudar os surdos precisa da presença de intérpretes. O app não consegue fazer isso”. “Não. O aplicativo não tem condição de pensar, para escolher a melhor estratégia de tradução. Ele faz o básico, mas não consegue dar a ‘entonação’ necessária para a fluência”.

Mais opiniões em comum

“Não. Aplicativo nunca vai conseguir interpretar os sentimentos, emoções e a expressões faciais e corporais e até os classificadores da LIBRAS”. “Não. Porque a tradução cultural é dotada de uma complexidade humana que o aplicativo não tem como contemplar”. “Não. Porque acredito que interpretação também tem que ter expressões, contexto e emoção”. “Não. LIBRAS tem suas particularidades que só o humano pode realizar com perfeição”. “Claro que não. O surdo tem o direito de ser atendido em sua subjetividade. Será que o aplicativo fará isso?”

“Sem dúvida não substitui, por causa da percepção que o intérprete precisa ter ao lidar com as nuances das duas línguas, coisa que acontecerá só no cérebro humano, no momento da interpretação”. “Nunca. Porque a interpretação não é apenas um ato mecânico. As metáforas, as falas de duplo sentido, sinais pejorativos e outros exemplos como esses, seriam interpretados de forma literal, causando ‘ruído’ na comunicação”. “Infelizmente, são investidos milhões de reais em pesquisa de aplicativo de tradução automática, que não oferece um retorno efetivo para a comunidade surda”. “Sim. Nós surdos queremos o ser humano e não aplicativo para substituir as intérpretes”.

Diferenças entre o avatar e o intérprete de LIBRAS

O avatar é um robô de inteligência artificial, um personagem tridimensional, que reproduz os sinais a partir de palavras enviadas em forma de texto. Eles utilizam a estrutura do português: sujeito-verbo-objeto, tal como no texto fornecido, o que não funciona em LIBRAS. Isso acontece porque o avatar não domina as técnicas de interpretação, além de não conseguir fazer expressões faciais e corporais.

Pensemos numa situação: é muito comum afirmarmos algo, ironicamente, e nosso interlocutor perceber facilmente que aquela afirmação é, na verdade, uma negação. Exemplo disso é quando afirmamos que alguém é lindo e o interlocutor percebe claramente que a intenção é negar e dizer que a pessoa é feia. Será que o avatar da inteligência artificial já estaria avançado a ponto de dar conta de adaptar e conseguir reproduzir a mensagem conforme a intenção original?

Proposta do avatar: será que funciona?

A proposta do avatar, na inteligência artificial, é cumprir a função de tornar o site das empresas acessíveis ao surdo. Nesse caso, mesmo traduzindo um texto pronto, num contexto que não varia… Corre o risco de apresentar apenas um português sinalizado e sem sentido. Os avatares ainda se prestam a ensinar LIBRAS para iniciantes. O que também é questionável, pois mescla a estrutura das duas línguas. Nem é LIBRAS, nem é português. Seria uma terceira categoria.

Quanto à proposta de substituírem o intérprete humano, em tempo real como da SignumWeb, intermediando uma conversação cheia de metáforas, intenções comunicativas e com necessidade de contextualização, é no mínimo arriscado. É de uma complexidade enorme o exercício de transformar a comunicação em LIBRAS, feita por humanos, em uma animação 3D. Existem parâmetros, na língua de sinais, que exigirão muito esforço desses pesquisadores…

A intenção comunicativa escapa à inteligência artificial (pelo menos por enquanto), podendo levar o surdo a um entendimento equivocado do texto. E, dependendo do contexto, isso pode representar um grande perigo. Vale a pena arriscar?

 

 

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