Entrevista: Heron Rodrigues da Silva - atleta surdo de karatê Entrevista: Heron Rodrigues da Silva - atleta surdo de karatê

Entrevista: Heron Rodrigues da Silva – atleta surdo de karatê

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O professor e lutador de karatê Heron Rodrigues da Silva, natural de Pato Branco – PR, conquistou a medalha de bronze na Surdolimpíada de Verão de 2013, realizada na Bulgária. E outro bronze na Turquia, em 2017! O atleta surdo de 32 anos é faixa preta no karatê há bastante tempo. Conversamos com Heron, com a ajuda de um intérprete de LIBRAS, e trazemos a entrevista na íntegra. Confira!

  1. Conte um pouco da sua história. Como descobriu a surdez, como sua família lidou com isso, quais as barreiras que teve que enfrentar…

Minha mãe é ouvinte e não sabia que eu era surdo. Eu nasci como se fosse ouvinte. Comecei a estudar, mas ia muito mal na escola. Minha mãe brigava comigo, mas eu estava só piorando na escola. Então ela descobriu que eu era surdo e procurou outra escola para mim. Comecei a usar LIBRAS aos seis anos e utilizo até hoje.

Entrevista: Heron Rodrigues da Silva - atleta surdo de karatê
Imagem: Arquivo pessoal
  1. Qual o impacto negativo, mas também os reflexos positivos derivados do fato de ser surdo?

Na minha opinião, tem coisas positivas, sim! Eu mesmo fiz as minhas escolhas e as minhas adaptações no trabalho. Tirei minha carteira de motorista, por exemplo. Então tudo isso para mim é normal. Falta um pouco de acessibilidade, de respeito, de comunicação, mas o resto é positivo. Eu já nasci surdo. Isso para mim é normal! Não sei como é ser ouvinte.

  1. Como você lida com a surdez? Você teve que enfrentar preconceito?

Sim, já sofri muitos preconceitos. Em vários lugares que eu chegava e perdia informações. Por exemplo, no banco. Como que eu ia me comunicar? As pessoas escrevem em papel. Demora demais. Às vezes eu perdia horários, atrasava no médico, sempre por causa da falta de comunicação. Se as pessoas usassem LIBRAS também, seria muito mais fácil.

  1. Como começou a sua história no karatê?

Meu primo é ouvinte e já fazia karatê. Eu tinha 9 anos e ele me incentivava. Comecei a aprender e não larguei mais. Sabia que isso me ajudava na minha saúde e também porque eu gosto muito de campeonatos.

  1. Como é a relação com sua área de atuação, com colegas, com a mídia? Como é ser um atleta surdo?

Eu me sentia orgulhoso disso tudo, porque precisei me esforçar. Para o ouvinte é mais fácil. Para o surdo tudo é diferente. Você conhece a CBDS? É a Confederação Brasileira de Desportos de Surdos. Tem todos os tipos de deficiências, mas não tinha nenhum surdo no karatê. No karatê não há muita exigência quanto a escutar. É uma relação, uma luta. Tem surda famosa no vôlei. Ela compete igual qualquer ouvinte. No esporte, não é tão difícil para os surdos.

  1. O surdo é considerado um deficiente, embora tenha revelado eficiência nos esportes (como você, um atleta surdo), nas artes e em várias outras áreas. Comente.

Quando comecei, eu era pouco divulgado. Dava poucas entrevistas, não aparecia muito. Não me sentia confortável na comunicação. Eu treinava muito, mas as pessoas não investiam em mim por causa da surdez. Mas fui participando de campeonatos e as pessoas foram vendo que eu estava vencendo. Comecei a aparecer. Ganhei um campeonato e isso foi um marco histórico: um surdo no karatê! Se eu tiver um filho surdo, vou ensinar que ele é igual aos ouvintes. Ele precisará acreditar em si mesmo.

  1. Você tem bolsa atleta do Ministério do Esporte?

Em 2013, eu tinha a bolsa-atleta. Mas eu consegui 3 medalhas, que era meu principal objetivo. A bolsa atleta acabou, mas estou refazendo o contrato. Acho que ano que vem recomeça.

  1. Como foi ganhar medalhas na Surdolimpíada?

Eu comecei em 2011 nos campeonatos mundiais. No começo eu ficava aflito, nas primeiras disputas, mas agora já acostumei. Sinto muito orgulho de ter ganhado medalhas. Foi ótimo. Uma excelente sensação. Quando eu for velhinho, vou poder contar essas histórias. E agora já posso aconselhar os surdos. Precisamos expandir isso.

  1. Como está a sua carreira e quais são seus planos para o futuro? Vai participar da próxima Surdolimpíada?

Eu tenho problemas no joelho. Fiz 4 cirurgias, por isso minha carreira está em baixa. Pretendo retornar no ano que vem, mas estou treinando leve. Na próxima eu não vou competir, por causa do joelho. Mas estou na comissão liderando como atleta surdo. Vou para treinar os atletas. Meu projeto é divulgar o karatê para os surdos, criar uma comissão própria, incentivar homens e mulheres.

  1. Qual mensagem você deixaria para os surdos?

Eu sempre falo para os surdos não desistirem de nada. Sei que sou um influenciador. Por isso incentivo os surdos a buscarem novas coisas. Tenho até um grupo no Whatsapp.

  1. O que achou da SignumWeb?

Achei a SignumWeb muito importante. Recebi a solicitação de entrevista e até assustei. Fui pesquisar e descobri que vocês promovem acessibilidade por videoconferência. Acho que vocês precisam divulgar muito para os surdos, porque eles precisam demais dessa comunicação. Às vezes, vamos a uma empresa e é bem melhor quando ela tem intérprete. Com o aplicativo fica mais fácil!

 

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2 comentários em “Entrevista: Heron Rodrigues da Silva – atleta surdo de karatê

  1. Eu nunca vi aquele surdo. Mas ele lutou muito bem e já superou seus obstáculos. Parabéns pela carreira!

    Gostei de sua entrevista. Parabéns, a equipe de Signumweb. Continue assim lutar.

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