Deficiência auditiva: a história do surdo e da surdez

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Acreditamos que o conhecimento é o melhor caminho para ajudar no desenvolvimento de uma causa. Por isso, nós, da SignumWeb, desejamos dar a nossa contribuição para contextualizar a surdez e a história do surdo.

história do surdo
Imagem: Creative Commons

Conhecida também como deficiência auditiva ou hipoacusia, a surdez é a perda total ou parcial da audição. Atinge 9,7 milhões de brasileiros, segundo o IBGE. É um fenômeno complexo, que pode ser diagnosticado por exames audiométricos.

As pessoas surdas sempre existiram, mas só recentemente alcançaram o direito de livre trânsito e estão sendo percebidas pela sociedade. Até muito pouco tempo atrás, ainda eram vítimas de opressão e exclusão.

O início da história do surdo

Durante séculos, os surdos foram vistos com preconceito e tinham pouquíssimas possibilidades de representar um papel atuante na sociedade. Para se ter uma ideia, em algum momento da história, esse tipo de deficiência era visto como algum tipo de castigo dos deuses. Sendo assim, os surdos marginalizados e, às vezes, obrigados a viver separados de suas famílias.

A educação da comunidade surda teve início no século XVI, pelo monge Pedro Ponce de León. Ele fundou uma escola para surdos em um Mosteiro de San Salvador, em Oña Burgos, na Espanha. Pelo que se sabe, ele foi o primeiro professor para esse público.

Seu trabalho era dar aula para os filhos dos nobres, com a finalidade de fazê-los falar e também usar a leitura labial. León ensinava alguns sinais que faziam parte da vida cotidiana dos monges beneditinos, os mesmos que se propunham a fazer voto de silêncio. Isso colaborou, e muito, para o desenvolvimento dos surdos. Portanto, possibilitou que eles interagissem com outras pessoas: os ouvintes.

França e Alemanha

No século XVIII, uma grande contribuição surgiu com o abade Francês Charles-Michel de L’Épée. Ele criou a primeira instituição educacional para surdos na França. Originalmente, era apenas um abrigo construído e financiado pelo próprio L’Épée em 1750. Mais tarde, em meados de 1760, o local se tornou a primeira escola para surdos do mundo. O abade descobriu que havia uma comunidade surda na capital da França e que eles faziam uso de uma língua gestual. Ele aproveitou o método e aplicou em seu projeto. O objetivo era ensinar o indivíduo surdo a aprender a se comunicar por meio dessa língua.

Outro a dar sua contribuição foi o alemão Samuel Heineke. Em 1754, teve contato pela primeira vez com um surdo. Posteriormente, em 1778, em Leipzig, construiu a primeira instituição para surdos da Alemanha. Ele escreveu inúmeros livros que abordavam o assunto. Sua metodologia consistia em um ensino que priorizava o aluno a falar. Mas, para que a língua oral fosse atingida, ele usava os sinais como auxílio. Assim começou a história do surdo.

Quando tanto progresso deixou de avançar?

Mesmo após tantas conquistas, uma guerra foi declarada pelos partidários do oralismo. Essa ideologia tinha a comunicação oral como prioridade para que o surdo aprendesse a falar.

Eram usadas metodologias como a fonoaudiologia, o uso de aparelhos, implantes, a leitura orofacial, entre outros. Eles acreditavam que terapias e tratamentos eram o único meio capaz de curar ou de “normalizar” pessoas que não ouviam. Como se fosse alguma anormalidade. Foram totalmente contra a abordagem anterior, de se educar o surdo com uma língua gesto-visual.

Para piorar a situação, com o aparecimento do Congresso de Milão, na Itália, que aconteceu em 1880, ficou estabelecido que a língua de sinais fosse proibida em sua utilização como método de ensino para os surdos. Na época, os deficientes auditivos perderam, inclusive, o direito de opinar sobre qual seria a metodologia de ensino que desejavam para si mesmos.

Quase 100 anos depois…

A língua de sinais só foi valorizada a partir do Congresso Mundial de Surdos, que aconteceu em 1971, em Paris. O objetivo do congresso era discutir novas maneiras de se instituir o ensino para os surdos, entre outras coisas.

No Brasil, houve a necessidade também de criar um centro educacional que possibilitasse ao surdo ter acesso à educação. Pois, no país, não havia ainda uma instituição que se preocupasse com a parcela da população que era surda.

A história começou a mudar quando o surdo francês E. Huet, que era professor e também partidário da filosofia de L’Épée, foi convidado a criar aqui no Brasil a primeira instituição totalmente voltada para o público surdo brasileiro.

Século 19

Em meados do século XIX, foi criado por Huet, no Rio de Janeiro, o Instituto Nacional de Educação dos Surdos (INES). O objetivo era desenvolver no país a educação para eles. O francês formulou um projeto que tinha como missão ofertar uma educação de qualidade para os surdos. Aí apresentou essa proposta para Dom Pedro II. O Imperador aceitou e destinou o Marquês de Abrantes para supervisionar a construção da primeira escola destinada aos surdos do Brasil!

Essa iniciativa foi colocada em prática no dia 1° de janeiro de 1856. Eram oferecidas disciplinas como Língua Portuguesa, Aritmética, Geografia, História do Brasil, Escrituração Mercantil, Linguagem Articulada, Doutrina Cristã e Leitura sobre os Lábios. O instituto sempre foi referência em educação para surdos. Era reconhecido internacionalmente. Por isso, muitos alunos de outros países chegavam para estudar… Já que por muitos anos essa era a única instituição que proporcionava uma metodologia específica para a educação dos surdos. Pelo fato de o instituto ter sido criado por um francês, a língua de sinais praticada pelos alunos sofreu forte influência do país. Isso tornou a Língua Brasileira de Sinais (Libras) muito semelhante à língua francesa de sinais.

Além da educação básica

Havia uma preocupação com o futuro do surdo, depois que fosse terminado o ensino formal. Por isso, eram oferecidos cursos profissionalizantes. Oficinas de sapataria, alfaiataria, marcenaria, artes plásticas e bordados!

No final dos anos 80, vários movimentos foram criados pela comunidade surda para que a língua de sinais fosse oficializada no Brasil. Esse fato ocorreu em 24 de abril de 2002 com a promulgação da Lei 10.436. Em 22 de dezembro de 2005, o então presidente da república fez com que as disposições desta lei fossem regulamentadas mediante o Decreto 5.625.

A lei

Pelo Decreto n° 5.626/05, a Libras deve ser tratada como a 1ª língua ou língua de instrução do surdo. A Língua Portuguesa deve ser oferecida na modalidade escrita, como 2ª língua. Isso para que se tenha acesso às informações contidas em livros, jornais e impressos. O mesmo documento dispõe, ainda, sobre os direitos dos surdos e os deveres que os órgãos públicos e privados precisam obedecer. Tudo para que haja o cumprimento efetivo do que impõe a lei. Para tornar o convívio social favorável e estimulante para que o surdo possa se sentir capaz de se desenvolver cognitivamente e de forma satisfatória.

Atualmente

A língua de sinais vem sendo colocada em primeiro plano, como língua materna do surdo… Embora as aulas continuem sendo ministradas em português e interpretadas. Pode-se afirmar, hoje, que a principal ou única limitação do surdo é o fato de não receber estímulos sensoriais auditivos. E isso não o impede de usar outros canais para se comunicar e interagir com o outro.

Essa é a história do surdo. A luta foi longa até aqui e ainda precisa continuar!

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